background

Descobrir a Fonte - Conhecer

 

Como Comunidade Hospitaleira, propomo-nos fazer um caminho ao longo deste ano 2020, que visa aproximar-nos da Fonte Batismal, como possibilidade de renascimento a uma realidade nova, que convida a levantar pondo-nos em atitude de saída. Cada um de nós recebeu um potencial de dons ao ser chamado à existência. Esta vida, temos que a assumir como realidade dinâmica, tal como uma semente que tomamos como figura ilustrativa para levar por diante tal iniciativa. Todo o dom recebido pede ser acolhido com coração generoso e entusiasmado, próprio de quem enfrenta a dinâmica da vida como uma constante surpresa que desinstala e desafia.


Trata-se de ampliar a consciência de quem somos e de deixar aflorar aquelas questões que, segundo o Papa Francisco, todo o cristão se deve fazer a si mesmo enquanto pisa o chão da realidade deste mundo em que vive. Que missão tem Deus para mim nesta terra? E, para quem sou nesta terra? Trata-se de criar as condições necessárias no mais fundo da nossa identidade pessoal, a capacidade ousada de dar resposta aos desafios que a vida nos coloca. De aderir positivamente e ao ritmo impulsionador do Espirito, empreendendo o caminho de volta a casa, à nossa casa, onde cada um se reconhece a si mesmo em missão e na mesma “Casa”. Pois é aí onde cada um aprende a redescobrir-se na riqueza partilhada do outro, se encontra e se recria ao valorizar-se desde o principio da complementaridade que só a comunhão é capaz de profetizar.


O objetivo desta iniciativa, consiste em elaborar um itinerário espiritual, recorrendo à imagem da Semente, tendo em conta as suas diversas fases existenciais de desenvolvimento. Este pequenino grão, apesar de único e carregado do imperativo a ser diferente, contém no seu ADN um percurso tão semelhante ao de Jesus, porque inspirado por Ele. E ainda assim, não pode ser nada sem Ele. Essa semente que ao ser acolhida pela terra da hospitalidade, que tão sedentamente a espera e lhe oferece guarida, se compromete a fazer com ela esse processo imprescindível de aceitar morrer, pagando por assim dizer o preço de experimentar uma realidade nova, transcendida pelo ser incumbido de por sua vez ser agente facilitador, capaz de provocar outros a receber e a promover mais vida, e vida em abundancia. Um convite e uma oportunidade a deixar que aconteça verdadeira transformação quando esta vai assegurada por ambientes fraternos que inspirem confiança e testemunhem atitudes de comum em confiança e abandono, às mãos d’Aquele de quem sabemos permanecer fiel e ao nosso lado nos que nos propomos realizar, apesar dos avanços e retrocessos que também caraterizam tal percurso.  


Várias são as fases que compreendem o mistério do processo de desenvolvimento da semente até ser o tudo a que está chamada ser. Sabendo-se esta pacientemente acompanhada e protegida sob o olhar terno de Deus, seu único Senhor de quem depende, não deixa de estar também ela condicionada à ação humana, sobretudo na primeira hora em que a semente é lançada à terra e no momento ultimo em que se procede à recolha do fruto.  Entre elas vão se sucedendo os dias e as noites. O Homem dorme e acorda, enquanto a semente cresce e produz o seu fruto, sem que este se aperceba das mudanças cruciais. Um percurso que tem tanto de silencioso quanto de mistério, e tudo isto na sua grande parte passa à margem da razão e olhar humanos. Contudo, este é o dinamismo que carateriza a experiencia de Reino que Deus insiste em instaurar no coração de quantos se determinam realizar o paradoxal itinerário do Mistério Pascal.
Cocriadores com Deus, foi-nos   outorgado desenvolver uma memória e uma liberdade agradecidas, capaz de nos levar a extasiar perante a grandeza das suas obras, enquanto Ele mesmo espera um dia também chagar a contemplar em cada um de nós essa sua obra sonhada por Ele. Oxalá tivéssemos nós a humildade e a ousadia decididas, para aceitar permanecer fieis e dóceis aos tempos e aos ritmos que o Espirito Santo imprime em cada um, aceitando ser mediadores ativos da “profecia” que o D. António Couto augura na sua mensagem em jeito de poema:   

Deita com ternura a semente na terra
        é o seu berço natural
        e adormece suavemente
        tu e a semente
        A semente não erra
        A semente não mente
        Adormece na terra
        Aparece depois como um fiozinho de erva
        Nasce e cresce, uma flor floresce
        um fruto amadurece, um pássaro desce
        E reza e canta e dança e prova e agradece
        ao Senhor da messe.
        Senhor Jesus dá-me um coração puro
        e transparente como uma nascente,
        e ensina-me a ser simples e leve
        como aquele pássaro que do céu desce,
        Reza, canta, come e agradece.