Impacto da pandemia do novo coronavírus em pessoas com reserva cerebral diminuída

Impacto da pandemia do novo coronavírus em pessoas com reserva cerebral diminuída
A pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) mudou a forma de estarmos no mundo.

Do medo do contágio ao sofrimento do adoecer, passando pela dor do luto da perda, os efeitos da pandemia na saúde mental da população geral terão uma causalidade que em muito difere das consequências diretas da doença provocada pelo vírus (COVID-19). Isolamento social, perda de rendimentos, desemprego ou sobrecarga de trabalho são alguns exemplos do impacto da pandemia que indiretamente poderão comprometer a saúde mental de todos.


Como geralmente acontece em situações de crise que afetam as sociedades, seja qual for a sua natureza, as pessoas com saúde mais frágil passam a estar numa situação de vulnerabilidade. No contexto da atual pandemia, as pessoas com reserva cerebral diminuída não são excluídas desta realidade. Incluem-se neste grupo pessoas com demência, doença cerebrovascular, doença de Parkinson, deficiência intelectual e muitas outras anomalias congénitas ou adquiridas do cérebro. No decurso da vida ou da progressão da doença destas pessoas é invariável a existência de psicopatologia. Adicionalmente, as consequências da pandemia poderão ter um impacto mais significativo na já frágil saúde mental destas pessoas. Poderá ocorrer, por exemplo, dificuldade de uma pessoa com demência em compreender o porquê de não estar a receber visitas da família na instituição onde reside, desenvolver a convicção de ter sido esquecida e deprimir. O confinamento em casa de um jovem com deficiência intelectual que diariamente frequentava a escola de ensino especial e desfrutava de atividades ao ar livre poderá condicionar ansiedade de difícil controlo. Estes são exemplos de consequências indiretas da pandemia, ou seja, consequências das medidas necessárias para a contenção da propagação do vírus. Excluindo as pessoas que pela idade ou pela patologia médica fazem parte dos considerados grupos de risco, todas as pessoas com reserva cerebral diminuída poderão ter mais consequências indiretas da pandemia na sua saúde, nomeadamente ao nível da saúde mental, do que consequências diretas, como a infeção do novo coronavírus e desenvolvimento da COVID-19. Assim, as intervenções em saúde mental junto desta população mais vulnerável são determinantes durante a atual pandemia.


A correta abordagem do doente com psicopatologia deverá seguir o modelo biopsicossocial com foco numa intervenção técnica que tem por base uma atitude empática, compreensão dos sintomas e contextualização sociofamiliar. Esta metodologia pressupõe uma consulta presencial com o doente e por vezes, família ou cuidador. Contudo, durante a pandemia todo o sistema de saúde teve de se reorganizar e de alguma forma passou a estar menos acessível ao nível dos cuidados programados (como por exemplo, consultas) e a população tem receado procurar as unidades de saúde por medo de contágio. Recomenda-se que doentes e familiares ou cuidadores devam estar atentos a sinais e sintomas que traduzam gravidade e não hesitar em contactar as unidades de saúde. Por outro lado, é expectável que o isolamento social e o confinamento possam condicionar sintomas transitórios de ansiedade e depressão do humor, que deverão ser entendidos como reativos e a atitude nestes casos poderá ser expectante, sem haver necessidade de intervenção técnica imediata.


É importante não esquecer que a par da pandemia todos os restantes problemas de saúde continuarão a existir e a necessitar de acompanhamento. As pessoas com maior vulnerabilidade às consequências diretas e indiretas da pandemia não deverão ser esquecidas. Pelo contrário, deverão ser adotadas medidas proactivas por todo o sistema de saúde de modo a assegurar a sua correta vigilância clínica.

Rui Albuquerque

Psiquiatra e Diretor Clínico do Centro Psicogeriátrico Nossa Senhora de Fátima, das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus

Sexta, 12 de Junho de 2020