Discriminação e estigma contra os profissionais de saúde

Discriminação e estigma contra os profissionais de saúde
Durante a pandemia de coronavírus houve sinais de apreço pelos profissionais de saúde, mas também houve manifestações de rejeição, isolamento e até ameaças de morte aos trabalhadores e suas famílias, alegando medo de infetar vizinhos e doentes.

A estigmatização dos profissionais de saúde tem sido pouco estudada, a maior parte da literatura científica concentra-se no estigma a pessoas que sofrem de algum tipo de distúrbio ou doença, como HIV ou doença mental.


Como em muitas doenças infectocontagiosas, o coronavírus está associado ao estigma, discriminação e rejeição; as epidemias com um alto número de casos e mortes relacionadas despertam a incerteza e o medo na população. As mensagens de distanciamento social, isolamento, quarentena, zonas de risco, etc. usados pelos governos para tentar controlar novas infeções aumentam a perceção de risco e favorecem a exclusão, não apenas da pessoa que ficou doente, mas também da sua família e daqueles que estiveram em contato, como profissionais de saúde.


O estigma e a discriminação estão associados à ignorância, classificação negativa das pessoas em risco e probabilidade percebida de contágio, conforme documentado em epidemias de influenza, cólera, SARS, Ebola ou febre amarela, entre outros. O conhecimento da história da medicina ajuda-nos a entender e a gerir melhor a atual situação de estigma para os profissionais de saúde.


Associar os profissionais de saúde ao contágio pode promover atrasos na procura de cuidados, ocultação de sintomas e atraso no controlo da pandemia. Por outro lado, mitigar a discriminação e o estigma podem ajudar a controlar a transmissão. O estigma compromete a coesão social, essencial para controlar a pandemia, isolando os profissionais de saúde, evitando o seu contacto e adiando os cuidados de saúde quando necessário.


O covid-19 despertou o estigma devido a vários fatores: é uma doença em que o conhecimento está agora a surgir, as evidências mudam de dia para dia, existem incertezas que aumentam os medos, o contágio está relacionado com os 'outros', percebidos como perigosos, aqueles que estiveram em contacto com o vírus, como doentes e profissionais de saúde. Medos, desinformação, ignorância estão associados a estereótipos, discriminação e estigma.


A gestão dos medos suscitados pela pandemia covid-19 ao nível da saúde pública pode ser tratada com estratégias comportamentais que respondem às necessidades de um segmento da população em risco de ser estigmatizado por meio da educação em saúde e comunicação adequada, não só ao nível do reporte de dados, mas também por mensagens na televisão, conferências de imprensa, meios de comunicação impressos e online.

Então, o que posso fazer para combater o estigma contra os profissionais de saúde? Aqui estão algumas ações recomendadas pelas autoridades de saúde (APA, CDC, OMS):

•    Divulgar informações baseadas em evidências, por exemplo, sobre meios de transmissão, medidas de proteção e fornecimento de dados estatísticos. O estigma é encorajado pela ignorância.
•    Promover a consulta de fontes confiáveis (OMS, Ministérios da Saúde, universidades).
•    Combater o "infodêmico" de desinformação, rumores e boatos que contribuem para o estigma, corrigindo erros de informação e reconhecendo os sentimentos das pessoas; promover a importância da prevenção, deteção, notificação e tratamento.
•    Ter cuidado com a linguagem, evitando nomes que promovam estereótipos e estigma ('vírus chinês', 'superinfetor', 'pessoa contagiosa'), evite identificar a pessoa com a condição e a desumanização como um 'caso suspeito' ou 'número de mortes', use termos que levem em conta a situação humana, como "pessoa com coronavírus", "falecido como resultado de doença".
•    Ajudar a redefinir os profissionais de saúde como heróis, assim como as vitimas.
•    Partilhar histórias que promovam empatia, humanizem a experiência e as dificuldades que os profissionais de saúde enfrentam na pandemia e histórias de esperança de pessoas que se recuperaram.
•    Sempre que possível, envolver "influenciadores", líderes religiosos, políticos, celebridades e jornalistas, é importante que suas interações com os profissionais de saúde sejam visíveis. Divulgar notícias, músicas etc. que dão uma imagem positiva das instituições e funcionários que lá trabalham.


Ricardo de la Espriella. Psiquiatra, epidemiologista clínico. Diretor Assistencial da Província da América Latina.

Terça, 23 de Junho de 2020