Crónicas de hospitalidade #2

Crónicas de hospitalidade #2
"A mudança foi e vai acontecendo em cada um de nós; nos hábitos de vida, no respeito pela casa comum, no cuidado pelo Outro". Irmã Fernanda Caetano, Irmã Hospitaleira

O ano 2020 ficará na história da Humanidade, da Congregação e da Província Portuguesa das Irmãs Hospitaleiras. O motivo poderia ser os 125 anos de presença da Congregação em Portugal, contudo, não podemos deixar de parte a pandemia do Covid-19, que não nos permitiu celebrar como tínhamos planeado tantos anos de presença da hospitalidade em Portugal.


No mês de março, fomos surpreendidos neste centro pelo Covid-19 e desde então as nossas rotinas alteraram-se na sua totalidade. Foi necessário redescobrir como fazer a hospitalidade ganhar vida e tornar-se presença entre a realidade concreta de cada dia como membros da Família Hospitaleira.
A pandemia do Covid-19 veio para nos fazer mudar mentalidades, formas de estar e de realizar o serviço hospitaleiro. Foi importante unir esforços num momento em que as incertezas se instalavam, visto ser uma situação nova para todos.


Este caminho foi feito em cada dia, na busca do melhor e do mais seguro para os utentes, não esquecendo a prioridade da missão hospitaleira - “O utente”. Foi necessário estabelecer prioridades e meios de segurança, atuando de acordo com a DGS e usando todos os equipamentos que permitem a cada profissional estar no terreno e realizar o seu serviço em segurança para os outros e para si mesmo. Salientar que este “atuar” em conjunto foi possível com o empenho das equipas que, unindo forças, mostraram que juntos “fomos e somos” o Samaritano
• Que não passa ao lado, mas se envolve com dedicação no serviço aos irmãos;
• Que deixa de estar com a própria família para estar mais disponível para o serviço e para uma maior segurança.


Isto foi notório no tempo alargado de horas no trabalho em cada dia para que nada faltasse e pudéssemos estar junto dos doentes. Tantos gestos e tanta entrega, gratuidade da parte de todos! Tantas horas partilhadas de alguns voluntários para que tudo fosse mais fácil!


Nestes tempos de pandemia, novos hábitos entraram na rotina diária: os equipamentos de proteção (EPIS), a lavagem constante das mãos, o desinfetante sempre pronto a usar; o distanciamento social, a máscara, o não poder tocar, abraçar, beijar, algo tão característico nos nossos utentes que, de um dia para o outro, deixou de ser possível.


O Covid-19 veio trazer-nos a oportunidade de não nos centramos só em nós, mas perceber e agradecer tantos gestos de solidariedade, mostrados através de carinho, de proximidade de partilha, doações em material (máscaras, luvas, viseiras, desinfetante…) que nos permitiram poder estar ao serviço em maior segurança para com aqueles que estão mais frágeis.


A mudança foi e vai acontecendo em cada um de nós; nos hábitos de vida, no respeito pela casa comum, no cuidado pelo Outro.
Neste tempo, fizeram sentido as palavras de S. Bento Menni: “Uma Pessoa vale mais que o mundo inteiro”. E foi com este sentido de que a Pessoa vale mais que o mundo inteiro que todos se reinventaram para ser e levar esperança e conforto aos que no meio desta pandemia ficaram de quarentena, contaminados e mais distantes das suas famílias.


Gradualmente vamos voltando à normalidade dentro da anormalidade do que a nossa vida se tornou, porque o Covid-19 veio para permanecer entre nós mais tempo do que estávamos à espera, por isso juntos vamos mostrando que estamos preparados para não nos deixarmos vencer, porque no mesmo barco estamos e como família hospitaleira remamos na mesma direção, pelo BEM de TODOS!

Irmã Hospitaleira e Responsável de um serviço de internamento na área de Reabilitação Global na Casa de Saúde da Idanha

 

Quinta, 16 de Julho de 2020