Crónicas de hospitalidade #3

Crónicas de hospitalidade #3
"O olhar continua a brilhar", Enf.ª Joana Sarmento

Nos últimos meses o mundo foi surpreendido por um vírus, um microrganismo que não conseguimos ver, mas que mudou a nossa forma de estar, de comunicar e de cuidar.
Diariamente fomos desafiados a viver de forma diferente. Como estar próximo do outro quando o distanciamento é obrigatório? Como comunicar, quando a nossa face está escondida por máscaras? Como tocar, quando as nossas mãos estão protegidas por luvas?
A verdade é que o olhar perdurou, e expressou as palavras que não dissemos, os sentimentos que calamos e a dor que não quantificamos. Mas o olhar manteve o brilho, e é sobre esse que vos quero falar!
Durantes três meses o nosso Centro Hospitaleiro conheceu novos hábitos, novas rotinas, novas formas de funcionar. Os corredores foram inundados por um silêncio ensurdecedor, os ritmos mudaram, as salas ficaram vazias, as portas fecharam. O medo espreitou!
Durante a pandemia houve dois marcos que nortearam a nossa caminhada: o valor da vida humana e a esperança. A nossa bússola? A resiliência!
Foi um percurso sinuoso, difícil, mas o trabalho em equipa, a união enquanto família hospitaleira permitiu acreditar que diariamente fizemos a diferença nas vidas de quem cuidamos.
Percebemos muito cedo que não seria um percurso fácil para as pessoas que assistimos, de repente, também o mundo delas foi virado do avesso, os momentos de convívio, as atividades, os passeios, as visitas dos familiares. Tudo isto mudou, doeu, mas quando aliamos amor, criatividade e tecnologia conseguimos aquecer o coração e fortalecer a alma.
A Família Hospitaleira ficou mais forte, a confiança aumentou e a coragem imperou. Juntos conseguimos colecionar sorrisos, gargalhadas, momentos especiais, momentos únicos. Afinal tudo isto é viver, é ser Missão!
Hoje sabemos que a vida de todos nós mudou: os nossos hábitos, as nossas certezas, as nossas prioridades. A pandemia obrigou-nos a parar, a dar valor ao essencial, ao aqui, ao agora.
O Futuro? Continuamos sem saber quando e como será o pós-Covid19, as respostas mantêm-se escassas, mas também não precisamos de muitas, apenas as suficientes para seguir em frente!
E o que nos faz seguir em frente não é dissemelhante do que nos trouxe até aqui. Acreditar! Acreditar que nada mais importa que o amor ao outro, porque no fim de tudo “uma pessoa vale mais que o mundo inteiro”!

Enf.ª Joana Sarmento, Casa de Saúde Rainha Santa Isabel

 

Terça, 21 de Julho de 2020