Crónicas de hospitalidade #4

Crónicas de hospitalidade #4
"Moçambique luta contra o Covid-19", Irmã Filipina Alonso

Chamo-me  Filipina  Afonso,  sou  Irmã  Hospitaleira  do  Sagrado  Coração  de  Jesus  e  encontro-me  em  Moçambique, meu Pais de origem, um País jovem, alegre,  com  muita  variedade  cultural,  com  muitas  Igrejas,  motivo  que  nos  leva  muitas  vezes  a  dizer  “não  existe  Moçambicano  sem  religião”,  mas também com um défice importante na distribuição dos recursos económicos!

Até ao dia 21 de março, data em que disparou o alarme com o anúncio do 1º caso de covid-19 em Moçambique, a vida seguia na sua normalidade sem a menor preocupação, por parte de muitos. Lembro-me  que  justamente  nesse  final  de semana  (domingo  à  tarde)  teríamos  a  via-sacra  arquidiocesana pelas ruas da cidade de Maputo. Infelizmente,     fomos     surpreendidos     com     a     informação da proibição da realização de eventos envolvendo  mais  de  50  pessoas,  entre  outras. Muitos  ainda  nos  dirigimos  ao  local  do  encontro,  mas  não  encontrámos  senão  agentes  da  polícia  e  responsáveis das paróquias dando a informação da proibição da realização da celebração.

No  rosto  das  pessoas  percebia-se  indignação, confusão,  inquietação,  medo,  e  certa  tristeza,  tal  como  muitos  comentavam:  “que  doença  é  essa  que até obriga a que se feche a casa de Deus?”. Realmente  para  muitos  não  é  fácil  compreender  como pode algo que não se vê fazer tanta confusão no mundo! Compreendendo ou não, o coronavírus é uma realidade em Moçambique tal como o é nas outras partes do mundo.

Situação atual em Moçambique

Até  finais  de  maio  a  situação  estava  bastante favorável: havia um caso ou outro, tentando sempre fazer-se  um  caminho  de  sensibilização.  Nessa altura  continuávamos  com  certa  “normalidade”, muita gente saía naturalmente à rua, a fazer os seus pequenos negócios para ganhar o pão do dia, uma vez  que  o  sustento  de  milhões  de  famílias  se  faz  com o trabalho de cada dia.

Mas desde o inicio de junho os casos começaram a  aumentar  de  forma  assustadora,  o  desemprego  aumentou, as barracas onde as pessoas se juntam para   vender   e   comprar   produtos   de   primeira   necessidade   começaram   a   ser   destruídas,   os   desobedientes  das  medidas  governamentais começaram  a  ser  presos  etc...  a  tristeza  invadiu muitas famílias e a fome assola muitos lares. Enfim, lentamente a morte aproxima-se de muitas famílias. Mas  também  temos  relatos  e  testemunhos  de muitas  famílias  que  consideram  este  tempo  como um tempo de graça no meio da desgraça, porque finalmente já é possível sentarem-se juntos à mesa, partilharem momentos e sobretudo rezarem juntos e tornar real a construção da Igreja Doméstica.

A nossa atuação como Comunidade Hospitaleira

É de recordar que o nosso centro é um centro de dia. Portanto, a recomendação do Governo foi de fechar todas as escolas, universidades, centros e o nosso não foi exceção. Isto levou-nos a reorganizar os nossos serviços de maneira a garantir os serviços básicos aos nossos utentes. Assim sendo, passámos a receber os utentes semanalmente em pequenos grupos   para   levantar   a   medicação   e   outros   tratamentos  indispensáveis.  Fizemos  palestras de sensibilização sobre os cuidados a ter com o covid-19 aos utentes e suas famílias, assim como às  pessoas  dos  bairros  circunvizinhos.  Alguma Irmã  tem  dado  continuidade  a  este  trabalho  de sensibilização através da rádio.

Com a ajuda dos amigos e benfeitores do centro continuamos  a  aliviar  a  fome  a  algumas  famílias,  através  de  alguns  produtos  básicos,  com  uma frequência mais ao menos mensal. Apesar das dificuldades sentidas, neste canto do mundo,  a  recomendação  também  é  a  mesma  – “Fica em casa”. Aqui estamos em companhia de Maria  nossa  Mãe,  tentando  reaprender  cada  dia  a  permanecer  ao  lado  de  quem  sofre,  levando  esperança  e  consolo  com  o  distanciamento  físico  possível.

Filipina Alonso, Irmã Hospitaleira e Enfermeira em Moçambique

Terça, 21 de Julho de 2020