Crónicas de hospitalidade #5

Crónicas de hospitalidade #5
"Os momentos, desde o início, foram duros, caóticos, aterradores. Experimentamos sentimentos e situações que até os profissionais mais experientes diziam nunca ter visto", Enf.ª Mónica Santos

Depois  de  ter  vivido  esta  situação  excecional  em  que  nos  encontramos,  desde  o  passado  mês  de  março,  agora  que  a  situação  acalmou  e  podemos  recomeçar a respirar, é necessário olhar para trás e refletir serenamente sobre tudo o que aconteceu.

Os  momentos,  desde  o  início,  foram  duros,  caóticos,  aterradores. Experimentamos  sentimentos  e  situações que até os profissionais mais experientes diziam nunca ter visto. Esta perceção fez com que, nas primeiras semanas, tomássemos decisões muito rápidas, mudando em função das necessidades, diferentes  em  pouco  espaço  de  tempo,  tendo  em  conta os recursos disponíveis.

É  nessas  situações,  quando  aflora  a  verdadeira  essência  das  pessoas,  que  se  descobrem  os verdadeiros valores profissionais, a verdadeira atitude  vocacional  e  as  melhores  qualidades  do  ser  humano. Vivemos uma experiência em que cada um de nós fez o melhor que sabia. É difícil esquecer os rostos, os olhares das pessoas que se aproximavam  para  perguntar  em  que  podiam  ajudar,  veteranos,  jovens,  recém-licenciados  em  cujo  rosto  se  refletia o medo, a incerteza... mas ali estavam. Vivemos momentos onde um olhar dizia tudo, era imprescindível olhar, expressando o desejo de abraçar todos os que estavam ali a ajudar, dando o seu pequeno contributo, apesar de saberem que, quando chegassem a casa, os esperava uma família, sem saberem até que ponto podiam estar a expô-la. Todos coincidimos no poder do contacto, na falta que nos fazia nesses momentos receber um forte abraço.

Como   enfermeira,   agora   na   direção   de   enfermagem,  vivi  um  dos  momentos  mais  duros  de toda  a  minha  carreira,  já  que  a  esta  situação  tivemos  de  somar  a  terrível  perda  de  um  grande  colega e amigo, o Dr. Aurelio Capilla, Diretor Clíni-co do nosso hospital. Ele enfrentou os primeiros momentos com o seu grande sentido de responsabilidade e grande capacidade de planeamento, graças ao qual pudemos garantir um bom atendimento aos  doentes  desde  a  sua  entrada  nas  urgências.

O  Aurelio  deixou  em  todos  nós  uma  marca  indelével,  destacando-se  pelo  seu  elevado  sentido  de  responsabilidade, espírito incansável para conseguir  melhorias  contínuas,  grande  capacidade  de  escuta,  vocação  para  as  relações  interpessoais  e  grande profissionalismo, aliado ao mais importante que se destacava nele: o seu grande valor como ser humano.

Foi  um  verdadeiro  prazer  e  uma  grande  sorte  ter podido partilhar e aprender tanto com ele durante todos estes anos. Nunca o esqueceremos.

Já  não  podemos  continuar  a  partilhar  momentos  com  ele,  mas  continuaremos  a  plasmar  a  sua  essência  que  a  todos  nos  confortava  e  nos  transmitia  serenidade  perante  situações  difíceis. Situações  como  a  vivida  torna-nos  mais  fortes  e  reforçou a nossa convicção de que o mais valioso que  possui  esta  Instituição,  das  Irmãs  Hospitaleiras,  são  as  pessoas  que  fazem  parte  dela,  aquelas que estão na linha da frente, no dia-a-dia do nosso Hospital,  prestando  o  seu  auxílio  e  o  seu  grande  profissionalismo  ao  serviço  dos  doentes,  dando o seu melhor, não se rendendo, trabalhando com força e empenho, apesar das dificuldades; em suma, Praticando  a  Hospitalidade.  Aproveito  este  meio para  agradecer  a  toda  a  equipa  do  hospital  Beata Maria Ana, incluindo todos e cada um, pela sua grande ajuda e contributo durante estes momentos difíceis recentemente vividos, e incentivá-los a continuar, fazendo parte desta grande Instituição.

Mónica Santos, Responsável de Enfermagem do Hospital Beata María Ana (Madrid, Espanha)

Terça, 21 de Julho de 2020