Crónicas de hospitalidade #6

Crónicas de hospitalidade #6
“Depois de pensar longamente e olhar para trás, dei-me conta de que houve aspetos positivos, tanto para os colaboradores, como para os residentes.” Testemunho de Anita Tsaneva.

Quando  me  pediram  que  escrevesse  sobre  a minha experiência durante os meses de confina-mento devido à COVID-19, inicialmente pensei sobre o que escrever, já que, sobretudo em Santa Teresa, tratamos de continuar o nosso trabalho com os residentes, mantendo-os seguros e seguindo as recomendações ditadas pelo governo do nosso país.

Depois  de  pensar  longamente  e  olhar  para  trás,  dei-me  conta  de  que  houve  aspetos  positivos,  tanto  para  os  colaboradores,  como  para  os residentes.  Mantivemos  um  espírito  positi-vo  na  nossa  instituição  e  tratamos  de  manter  a  vida  dos  nossos  residentes  o  mais  próxima  da  normalidade  possível.  De  repente,  converteu-se   em   algo   normal   ver   as   pessoas   com   máscaras azuis; com o tempo, tanto nós como os residentes, podíamos imaginar o sorriso desse colaborador a falar connosco, podíamos ouvir o seu sorriso na voz. Prestar atenção à entoação foi mui-to  útil!  Houve  muitas  situações  cómicas,  quando  as máscaras impediam os residentes de decifrar o significado correto do que tinha sido dito e provo-cavam todo o tipo de interpretações engraçadas.

Os  colaboradores  fizeram  um  esforço  adicional para  que  os  residentes  continuassem  felizes,  ape-sar  das  circunstâncias. Para  tal,  passaram  mui-to  tempo  nos  seus  quartos  a  cantar  para  eles,  colocando   a   sua   música   preferida,   dançando,   brincando e fazendo-os sorrir. Esta foi uma bela forma de ajudar os residentes a ficarem menos afetados pelo confinamento e pelo isolamento que sofreu todo o país. Fez-me ver os meus colegas como heróis, enquanto continuavam a trabalhar e a manter a calma, partilhando pensamentos e atitudes positivas, e sempre com um espírito feliz, sem se queixarem, e sem diminuir a sua atitude de entre-ga. Pelo contrário, a sua generosidade foi máxima!

Aprendemos muito e utilizamos o tempo de forma construtiva,  como  uma  experiência  de  aprendizagem. No início do confinamento, os residentes pas-saram um mês nos seus quartos, e isso ajudou-nos a identificar e reconhecer que alguns deles ficavam mais felizes por tomarem as suas refeições no quarto, e não no refeitório. Os residentes também se  revelaram  muito  recetivos  e  entusiastas  ao  poderem realizar as atividades e conversas de forma mais pessoal, um a um. Este conhecimento será integrado  na  nossa  rotina  diária  e  iremos  mantê-lo  no futuro.

Também aprendemos a valorizar as pequenas coisas.  Coisas  que  agora  apreciamos  imensamente: sair num dia de sol, passar algum tempo no jardim, conversar e jogar um jogo, ou tomar chá em grupos de mais de 2 pessoas. Em finais de abril, foi a primeira vez, desde que começou o confinamento, que fizemos uma pequena festa, e celebramos os aniversários dos residentes nascidos nesse mês. Foi uma celebração muito esperada e uma das mais felizes que já vivemos, cheios de vida, alegria e gratidão. Muita música, e também dançámos!

E  a  experiência  positiva  continuou:  integramos  as  novas tecnologias para ajudar os nossos residentes a manterem-se ligados às suas famílias. As autoridades locais de Kensington e Chelsea doaram-nos três novos IPads. Graças ao Skype e ao Facetime, os residentes puderam realizar videochamadas regularmente para as suas famílias. Foi incrivelmente útil, sobretudo para alguns dos nossos residentes com demência que sentiam a falta dos seus fami-liares e não podiam expressá-lo verbalmente. Foi muito comovedor vê-los alegres e animados no final de cada chamada!

Sentimo-nos    gratos    por    pensarem    em    nós,    nos  nossos  residentes  e  nos  colaboradores durante este momento tão difícil. Recebemos muitas  chamadas  telefónicas  de  familiares,  amigos  e  vizinhos,  enviando-nos  os  seus  melhores  votos  e  mensagens  de  apoio,  demonstrando  que  estão  connosco  nos  momentos  de  dificuldade  e necessidade. Foram-nos deixando regularmente   muitos   cartões   encantadores   na   porta  principal,  alguns  de  pessoas  que  conhecemos, outros de crianças e adultos da vizinhança que queriam  animar-nos.  Também  recebemos  flores, nunca ficamos sem flores em casa. Não podemos esquecer-nos  do  lado  mais  doce;  recebemos grandes   quantidades   de   deliciosos   donuts   e   chocolates   de   duas   empresas   locais,   para   os   residentes  e  os  colaboradores  desfrutarem  e partilharem. Além disso, recebemos desinfetantes com aroma a lavanda, para nos mantermos seguros, enquanto usufruímos de um perfume delicioso.

As experiências vividas durante os últimos três meses não foram todas fáceis, mas uma coisa ficou clara: juntos somos mais fortes e, com apoio, compaixão e amor, podemos superar as dificuldades, aprender,  e  continuar  mais  fortes  e  motivados  do  que nunca.


Anita Tsaneva, Coordenadora de atividades em Santa Teresa (Londres, Inglaterra)

Terça, 28 de Julho de 2020