Crónicas de hospitalidade #8

Crónicas de hospitalidade #8
“Em tempos de COVID19, enquanto profissionais sociais e de saúde, a tarefa de nos reinventarmos em relação às nossas intervenções foi complexa, mas temos tentado fazer o máximo esforço”, Michael Moreno

Na comuna de Santiago, o setor mais central da ca-pital do Chile, encontra-se o Centro Diurno S. Bento Menni,  das  Irmãs  Hospitaleiras,  um  lugar  onde  32  pessoas com doença mental grave e numa situação de elevada vulnerabilidade social, têm a possibili-dade de estar diariamente para realizar diversas atividades de reabilitação psicossocial e comunitária.

Em  tempos  de  COVID19,  enquanto  profissionais sociais  e  de  saúde,  a  tarefa  de  nos  reinventarmos  em  relação  às  nossas  intervenções  foi  complexa,  mas temos tentado fazer o máximo esforço. Não há dúvida de que a tecnologia foi importante; videochamadas, reuniões online, chamadas telefónicas, Whatsapp... foram parte das ferramentas que utilizamos  para  desenvolver  as  nossas  estratégias  de intervenção. Contudo, tivemos de dar um passo mais além e realizar visitas domiciliárias. Tentamos tomar todas as precauções necessárias em relação à proteção pessoal e à dos nossos utentes, para ir até aos seus domicílios, com a finalidade de saber, em  primeira  mão,  como  se  encontravam,  quais  eram as suas novas rotinas, se precisavam de alguma coisa em que os pudéssemos ajudar, para além de  lhes  entregar  material  terapêutico  para  poderem  realizar  algumas  atividades  similares  às  que  podiam realizar no nosso Centro Diurno.

Devido  à  complexidade  das  deslocações  na  região,  aos  riscos  e  ao  sacrifício  que  isto  implica,  questionamo-nos  sobre  a  pertinência  deste  tipo de intervenção ao domicílio. Ao analisar em profundidade,  chegamos  à  conclusão  de  que  esta  assistência estava a marcar a diferença, sobretudo  naqueles  casos  de  utentes  com  uma  situação  de  vulnerabilidade  muito  elevada.  A  proximidade  que  nos  caracteriza,  enquanto  Instituição  Hospitaleira,  vive  deste  tipo  de  ações,  ainda  mais  quando  estas  nos  permitiram  oferecer  os  apoios  necessários a pessoas com dificuldade em respeitar a quarentena, já que aumenta a sua ansiedade e/ou precisam de trabalhar os seus vínculos familiares.

Numa destas visitas domiciliárias, tivemos a experiência de poder detetar uma utente com sintomas evidentes  de  coronavírus  que  se  encontrava  acamada  há  vários  dias,  e  nem  ela,  nem  a  sua  família  tinham  conseguido  perceber  a  gravidade  da situação. Nesse momento, foram realizados os procedimentos  necessários  para  que  uma  equipa  de  saúde ao domicílio lhe fizesse uma avaliação e, depois de verificar o seu estado, internaram-na. Esta utente encontra-se, atualmente, ligada à ventilação assistida e está a lutar contra este vírus.

Neste  contexto, refletimos  em  torno  dos  valores   hospitaleiros   em   que   está   cimentada   a   nossa  Instituição  e  que,  desde  o  nosso  primeiro dia de trabalho, nos foram transmitidos. A ética,  a  sensibilidade  pelos  excluídos,  a  qualidade profissional,  a  saúde  integral,  a  humanidade  no atendimento... são valores que se identificam de forma  impecável  com  o  tipo  de  pessoas  que  so-mos, bem como com a nossa formação.  São,  sem  dúvida,  palpáveis  quando  trabalhamos  e  nos esforçamos,  dia  após  dia,  para  nos  adaptarmos  a  uma nova forma de trabalhar que se repercute no bem-estar de toda a nossa comunidade hospitaleira.

Michael Moreno, Terapeuta  Ocupacional  da  Rede  de  Saúde Mental das Irmãs Hospitaleiras do Chile

Terça, 28 de Julho de 2020