Voluntariado Hospitaleiro

Voluntariado Hospitaleiro
O que parece o argumento de um filme de ficção, tornou-se a realidade de milhões de pessoas em todo o mundo...

O que parece o argumento de um filme de ficção, tornou-se a realidade de milhões de pessoas em todo o mundo...e em muitas delas, na primeira pessoa. O Covid 19 estava instalado, e o nosso vocabulário diário acrescentou novas palavras: confinamento, quarentena, equipamento de proteção individual, viseira, pandemia…
Como voluntário na Casa de Saúde da Idanha, vi a minha participação suspensa nos primeiros dias de março. O mundo começava a viver uma “nova era”, e de repente o confinamento em casa, o medo, a dúvida, a incerteza...tudo tomava conta do meu pensar.
Alguns dias privado da Eucaristia, recordei os Cristãos perseguidos, os privados de liberdade, a comunidade hospitaleira da casa de saúde da Idanha, que semanalmente eu visitava. De repente a comunicação social, queria fazer notícia com a “minha família”, tudo me fazia sentir motivado a ajudar, a ir mais além do que me era permitido.
No domingo de Páscoa participei na Eucaristia, e sem normas ainda definidas, foi celebrada com a porta da igreja fechada...senti-me um Cristão clandestino. Quatro Irmãs Hospitaleiras participaram da mesma Eucaristia, foram buscar comunhão, para uma comunidade hospitaleira imensa, que na retaguarda, era, e é, uma grande e verdadeira Comunidade Orante!!!
Durante a celebração, várias vezes aclamámos “Cristo Ressuscitou, Aleluia”…, “Cristo Ressuscitou Verdadeiramente”!! Para mim fez todo o sentido, mas eu não podia sair dali como entrei, sem “Anunciar”, não podia voltar a confinar-me em casa. No final da Eucaristia, fui saudar a irmã Lígia, e voluntariei-me para o que precisassem de mim...dali á prática foram umas horas.
Como voluntário disponível à missão, apresentei-me na Casa de Santa Rosa de Lima em Belas!! Início da aventura, mas também de uma vivência que não esquecerei. Pisei aquela casa pela primeira vez, mas o Carisma da Hospitalidade é transversal, quem conhece uma casa da Congregação, conhece todas, e o acolhimento foi imediato e caloroso! O Covid 19, trouxe uma proximidade ainda maior entre pessoas, tal como as boas práticas da Hospitalidade...proximidade, acolhimento, preocupação com o outro...e isso senti e vivi, na casa de Belas. Fiz um pouco de várias coisas, fiz o que era preciso fazer, sem questionar...mas do armazém à farmácia, das idas á Idanha, das cargas e descargas...de tudo, o mais significativo naquele tempo para mim, e que guardo para a vida, é sem dúvida, a relação com a comunidade utente.
O tempo das refeições foram vividos de forma singular e especial. Não esquecerei nunca, a minha “orientadora” para esta tarefa, a Irmã Conceição Esteves, que na sua calma e tranquilidade, me deu ensinamentos para a vida. Sem querer catequizar-me, ou sequer pensar que todos os seu gestos estavam a ser vistos por mim como “aprendiz”, transmitiu-me a calma e tranquilidade de quem já viveu muitos outros momentos, parecidos ou não, mas transformadores para a vida de qualquer um de nós, e transmitiu-me a confiança, que tudo vai passar…!!! A Irmã Conceição, no seu silêncio mostrou-me que, mais que as boas obras, ou os grandes gestos, o que agrada a Deus, é a confiança N’Ele.
Principalmente os almoços foram grandes momentos de entrega, com mascara, viseira, luvas...uma voz que as utentes não conheciam, numa realidade nova para todos nós, a empatia foi imediata. O olhar foi o melhor comunicador, foi o sorriso, foi o encontro que quebrou barreiras. Recordo cada rosto, cada nome, cada forma de estar diferente em cada uma, alheias a tudo o que se passava, mas conscientes que era perigoso, e que queríamos o melhor para elas e depressa. Em cada dia na hora do almoço, a Ir Conceição ao chegar sintonizava um pequeno rádio que estava no corredor, na Eucaristia das 12h...lembro-me que desde o primeiro dia, durante todo o almoço, e mesmo com todo o material de proteção, cantei sempre o mesmo cântico: “eu sou o pão da vida /quem me come não morrerá /eu sou a luz do mundo /quem me segue viverá”...foi em muitos momentos, o diálogo possível, mas sempre entendido, entre mim e a pessoa que estivesse à minha frente. As palavras do cântico, eram certeza para mim, uma certeza que naqueles dias não sabia quando, ou se, aconteceria...mas eu desejava que as senhoras enquanto me ouviam, acreditassem que o alimento de Deus é o nosso alimento.
Estes momentos partilhados eram a compensação e resposta para muitas dúvidas que inquietavam tudo e todos. De repente não se podia tocar em nada nem em ninguém, a própria sombra era ameaçadora, o vírus trouxe a desconfiança, a instabilidade, trouxe tristeza e morte. Era uma realidade a cada instante do dia, e todos fazíamos tudo e de tudo.
Vivi nesta “missão” o dia 24 de abril, dia de São Bento Menni, e mais uma vez, a minha oração misturava-se com desejo, com súplica, com vontade que o Padre Menni, do alto dos céus tudo resolvesse...que mais ninguém sofresse ao cuidado das irmãs, que o mundo visse a cura para o “fantasma” que nos estava a destruir. O momento não permitia qualquer festividade, e recordei com nostalgia outros anos anteriores passados na Idanha...todos os dias no tempo que tinha para almoço, fui á capela, e esse dia ainda com mais entusiasmo, porque o Dono da Casa merecia visita e oração. O padre Menni, foi quem mais lutou, provou, e conseguiu, aliar a ciência à religião, e naquele dia 24 de abril, eu só pensava nisso...no coração, eu fiz festa, eu alegrei-me, eu partilhei alegria e esperança!!
Os dias foram passando, as rotinas do dia-a-dia nunca mais se instalavam para sentirmos confiança, para vermos a luz ao fundo do túnel. Toda a comunidade estava unida em esforços, em nos protegermos uns aos outros. A “partida” de alguém criava um silêncio de impotência, como se todos fossemos o mesmo corpo, a mesma e única família.
Do lado de fora desta realidade estava a vida de todos nós, mesmo em tempo de pandemia. E ao fim de alguns dias, e porque não conseguia responder às mensagens e telefonemas que ia tendo, contei a alguns amigos o que estava a fazer, e a resposta foi rápida: “estás louco...meteste-te nisso..”. Hoje, consciente de tudo o que vivi naqueles dias, digo que voltaria a fazer tudo outra vez...corria o mesmo risco, estaria com a mesma entrega!!
Voltando agora o olhar para trás, para esses dias, recordo rostos que não conhecia, e que apenas conheci por alguns dias ou horas...rostos que “partiram” silenciosamente. Mas também sei, que mesmo eu sendo apenas uma gota de água na imensidão deste mar, que é a Família Hospitaleira, participei para que alguns (muitos) rostos voltassem a ter alegria.
Tudo isto contado assim parece uma história, apenas uma história, mas os laços que se fizeram, as conversas que se partilharam, as incertezas que a pandemia trouxe ao pensamento de cada um, solidificaram laços para a vida. E este, ou estes testemunhos, são uma forma de exorcizar medos, e palavras que ficaram por dizer...
De hoje em diante, qualquer que seja o tempo ou era que se viva, a referência ao século XXI, será eternamente a pandemia, e o Covid 19.
Vítor Cabrita

Sábado, 5 de Setembro de 2020