Ser hoje o “hoje” de Deus

Ser hoje o “hoje” de Deus
Reinventar a Hospitalidade é caminho sempre aberto onde, na distância, podemos ser mais proximidade, no “não-toque” podemos tocar mais e profundamente.

Ser hoje o “hoje” de Deus

 

 

Em tempo de pandemia, vão-se os planos e demais estruturas organizativas, projectos, rotinas e monotonias, formas de ser e de estar: há tempos e sinais que funcionam como alertas desestabilizadores e desacomodadores, que nos permitem perceber que, se calhar, estamos a ser “hospitais”, mas não de “campanha”, que temos os nossos espaços demasiadamente “limpos e organizados”, trabalhamos muito com as mãos e pouco com o coração, vemos demais e olhamos de menos; damos a cara mas não a vida! Exige-se reinventar a Hospitalidade, fazendo-a coisa nova, totalmente outra, mas plenamente fiel à verdade da sua originalidade, uma Hospitalidade que, como o Deus de Israel, sabe ver a opressão do Seu povo e decide libertá-lo; como o samaritano da parábola, que não consegue passar ao lado sem aproximar-se, ou, como o Mestre da Galileia, que faz chegar a salvação ao “hoje” de Zaqueu, de Mateus, do bom ladrão e de tantos outros.

A novidade da Hospitalidade só poderá ser a do coração a descoberto, totalmente amado e amando: ajuda-nos o rosto coberto com uma máscara! Olhar penetrante, misericordioso e compassivo, que mostre amor sem julgamento e acolhimento sem condenações, que me transporte ao “eu” do outro, assumindo suas dores e misérias e me faça totalmente “ele”: ajuda-nos o não poder tocar-nos fisicamente! Dizer as palavras que nunca foram ditas, ou foram mal ditas, evangelicamente carregadas de sabedoria, paixão e fogo, que capacite o outro a envolver-se numa dinâmica libertadora e curativa onde ele não é vítima mas protagonista: ajuda-nos o não poder abraçar!

Reinventar a Hospitalidade é caminho sempre aberto onde, na distância, podemos ser mais proximidade, no “não-toque” podemos tocar mais e profundamente, onde as palavras dizem mais e os olhares mais comprometem, a cumplicidade é mais descarada e a certeza do “eis-me aqui” é mais comprometedora.

Há pandemias que exigem “sacramentalizar” a pessoa e humanizar os ritos, divinizar as relações e humanizar orações. No meio de todo este emaranhado só nos resta ser sinais efectivos e afectivos de Deus no “hoje” de tantas e tantos, certeza e garantia de que, mais do que “vai ficar tudo bem”, vamos continuar na mão de Deus, porque Ele “gravou-nos na palma das Suas mãos” e sabemos em “Quem pusemos a nossa confiança".

A nós, chamados à Hospitalidade, cabe-nos ser, em tudo e para todos, o HOJE de Deus! O resto… é competência dos profissionais da saúde.

 

Pe. Norberto Brum

Capelão da Casa de Saúde Nossa Senhora da Conceição – São Miguel

 

Segunda, 21 de Setembro de 2020