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Crises de pânico: O medo no corpo

É no corpo que se expressam estas crises mas como nos demonstrou António Damásio “sem corpo não há emoções”

Se alguém, de repente, se vir confrontado com uma cobra-cascavel ficará de imediato em grande tensão, em estado de alerta intenso, a sua frequência cardíaca aumentará, a frequência respiratória também e certamente a sua capacidade de fuga à situação ficará ao nível máximo de eficiência permitindo assim o sucesso da sua sobrevivência.

Como Charles Darwin ressaltou, as emoções são fundamentais à sobrevivência da espécie e o medo em particular permite aos animais (como o ser humano) terem soluções imediatas para as ameaças com que são confrontados.

No exemplo da cobra, a reação é tão imediata que o sujeito poderá só ter consciência do medo à posteriori. Nesta sequência cobra>reação>fuga, a consciência do medo encontra claramente uma justificação e um sentido.

Este não é o caso da Perturbação de Pânico, forma patológica cuja prevalência aparentemente tem vindo a aumentar nas últimas décadas. Sem motivo aparente, a pessoa é subitamente invadida por uma sensação de medo intenso para a qual não tem justificação ou sentido. Como a respiração se tornou ofegante e o coração disparou, muitas vezes aparece uma dor opressiva no peito, com tonturas, tremor, suores, formigueiros vários e sensação de desmaios, a pessoa tem a sensação que pode desfalecer ou morrer em poucos minutos. Se a fluência das ideias se tornar tão rápida ou até caótica, nessa altura então sobrevêm também a sensação de estar a enlouquecer.

Nesta situação de medo patológico, ou seja, sem justificação, sentido ou finalidade, a emoção gera paradoxalmente a iminência de morte sem ser salva pela sensação eufórica de sobrevivência que acontece perante um perigo real.

Com a iminência de loucura ou morte ou até de forma mais suave, correndo o risco de um desmaio, a pessoa procura um SOS salvífico que só pode ser encontrado no 112 e inevitavelmente nas urgências hospitalares.

Para quem sofre de pânico é comum ter uma recordação muito viva da primeira crise, havendo pessoas que se lembram com detalhe desse dia, dessa hora, desse local e de todo o contexto situacional envolvente.

A partir dessa primeira crise e das outras que se seguem, a pessoa inicia um calvário de consultas de Medicina Geral e Cardiologia para “descobrir” o problema orgânico, que lhe provoca tais sensações no corpo. Para cada um é difícil aceitar que o coração em sobressalto, a sensação de asfixia e “respiração incompleta”, o tremor, as tonturas, os suores e sobretudo, a ideia de morte iminente, esteja associado a uma disfunção cerebral/mental. Mais ainda, quando não parece haver causa psicológica imediata ou longínqua para tal sofrimento. Para muitos, a vida corre bem na família, no trabalho e no lazer. E as perguntas surgem revelando a incredulidade da situação: Porquê eu? Porquê isto?

Por vezes os desígnios do cérebro não obedecem à lógica da nossa formulação da vida e do sentido que para ela damos. Por isso parece ser uma disfunção hiperativa da amígdala, pequena estrutura anatómica situada na região ântero-inferior do lobo temporal, importante na gestão das emoções que é responsável pelo desencadeamento das crises de pânico.

É no corpo que se expressam estas crises mas como nos demonstrou António Damásio “sem corpo não há emoções”

 

Dr. Pedro Varandas

Psiquiatra

Diretor Clínico das Irmãs Hospitaleiras Lisboa

Artigo publicado na revista Visão

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