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Psiquiatria, a medicina da subjectividade

Um psiquiatra tem de chegar ao eu interior e o ao mundo subjectivo do paciente.

O que é a Psiquiatria? As perguntas simples que qualquer criança coloca são sempre as mais difíceis de responder.

Desde logo vos digo, que mesmo entre os psiquiatras, a resposta a esta pergunta não é consensual, o que remete esta questão para a própria identidade da Psiquiatria enquanto especialidade médica.

Muitos doentes também não sabem decidir se devem consultar um psiquiatra ou um neurologista. Tendo o sofrimento psíquico o seu substrato natural no cérebro, enquanto órgão anatómico e enquanto função, compreende-se a dúvida na escolha. Claro que ninguém duvidará que deve ser observado por um neurologista se de repente metade do seu corpo ficar paralisado. Da mesma forma ninguém duvidará da necessidade de consultar um psiquiatra se estiver a vivenciar uma profunda depressão. Mas o que fazer em situações menos claras?

Revisitemos então os fundamentos da psiquiatria para perceber melhor o seu âmbito:

  1. Os psiquiatras são médicos que se dedicam ao diagnóstico e tratamento das doenças psíquicas;
  2. As doenças psíquicas são sobretudo reconhecidas pela comunicação verbal de experiências/vivências subjectivas e pela observação ou relatos de determinados comportamentos, ambos considerados anómalos.

É sobretudo através da relação interpessoal com o paciente que o psiquiatra reúne a informação comunicada, com a informação resultante da observação directa do comportamento mas, também, da observação da atitude, mímica, gestos e postura. A tudo isto pode acrescentar relatos do próprio ou de terceiros sobre os seus comportamentos. A partir daí pode avançar para um diagnóstico e propor um tratamento.

Para se conseguir reunir esta informação com rigor é acima de tudo necessário que o doente esteja consciente e consiga relatar/comunicar o que se passa com ele. No fundo, que o doente seja capaz de transmitir o seu interior ou, clarificando, seja capaz de relatando as suas experiências/vivências, revelar o seu mundo subjectivo, meta primeira a atingir neste diálogo.

Neste sentido pode então dizer-se que a Psiquiatria é a especialidade médica que se dedica às doenças e ao sofrimento com origem no universo da subjectividade humana, constituindo-se assim como uma verdadeira medicina da subjectividade.

Desta forma contrapõe-se a grande parte das especialidades médicas cujo âmbito é na maioria dos casos escrutinável objectivamente, pela anamnese, pela observação ou ainda pelos exames complementares de diagnóstico.

Para além disso, a Psiquiatria tem uma linguagem própria que se alimenta da comunicação dinâmica com o doente e por isso é na sua essência uma medicina da relação, relação essa que, pode ainda ser trabalhada como terapia (psicoterapia). Sendo a medicina da subjectividade e da relação é como concluiu Pedro Polónio (célebre psiquiatra da 2ª metade do Século XX em Portugal), a medicina da pessoa.

No momento em que a prática médica se move para a tecnologia e que os médicos de instrumentalizadores passam muitas vezes a ser a mão dos instrumentos, a psiquiatria pouco objectiva, dita menos “científica” e basicamente sem tecnologia de suporte é a derradeira oportunidade do encontro médico-doente na velha tradição Hipocrática.

Definindo-a melhor através de conceitos psicopatológicos, a psiquiatria dedica-se às doenças afectivas como a depressão, a perturbação bipolar e ao vasto campo da ansiedade (pânico, ansiedade generalizada, obsessões). Dedica-se às doenças ditas psicóticas como a esquizofrenia e paranóia, mas também ao comportamento alimentar (anorexia, bulimia), a formas graves da percepção do corpo (dismorfofobia) ou ainda à psicossomática.Tem obviamente uma intervenção no sofrimento psíquico em geral, seja de natureza patológico, seja o que decorre de reacções vivenciais (luto, crises pessoais, familiares ou outras, calamidades, etc.) e, é ainda solicitada a pronunciar-se na área forense.

Tendo um campo próprio de intervenção, sendo a guardiã da tradição clínica da medicina e sobretudo como medicina da pessoa, a psiquiatria não está condenada a desaparecer como muitos vaticinam.

Provavelmente, no futuro, outras especialidades médicas terão que olhar para a psiquiatria como um exemplo para o seu reencontro com os fundamentos da medicina.

 

Dr. Pedro Varandas

Psiquiatra

Diretor Clínico das Irmãs Hospitaleiras Lisboa

Artigo publicado na revista Visão

 

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