Na consulta de memória, a avaliação inclui entrevista clínica detalhada, história médica e emocional, avaliação cognitiva estruturada e análise da medicação. Nunca faço diagnósticos rápidos.
Um único teste não define um diagnóstico. O que define é o conjunto de dados clínicos, observados com tempo e cuidado.
Não existe um único tratamento
Por outro lado, não existe um tratamento único para as perturbações da memória.
Cada pessoa tem uma história, um corpo e um cérebro diferentes. O tratamento depende sempre da causa e do contexto clínico.
Tratar a memória exige perceber o que está a interferir com o funcionamento cerebral naquele momento da vida da pessoa.
Quando a causa é emocional ou psicológica
Em muitos pacientes, identifico uma depressão ou uma perturbação de ansiedade como fatores centrais.
Nestes casos, o tratamento dessas doenças mentais traduz-se frequentemente numa melhoria clara da memória, da atenção e da clareza mental.
Porque um cérebro emocionalmente sobrecarregado não memoriza bem, mesmo quando não existe uma doença neurológica estrutural.
Ajuste de medicação: um passo muitas vezes decisivo
Noutros casos, o foco está no ajuste da medicação.
Alguns fármacos, sobretudo quando usados em combinação ou durante longos períodos, interferem com a memória e com a velocidade do pensamento.
Ao fazermos a revisão criteriosa da medicação, com segurança e acompanhamento clínico, traremos benefícios significativos na memória de muitos pacientes.
Intervenção cognitiva e estimulação funcional
A intervenção cognitiva ocupa um lugar importante no tratamento.
Refiro-me a programas estruturados de estimulação cognitiva, adaptados ao perfil de cada pessoa.
Estas intervenções não servem para “treinar o cérebro como um músculo”, mas para ensinar estratégias práticas que ajudam a compensar dificuldades no dia a dia.
Apoio psicoterapêutico: reduzir medo e insegurança
O apoio psicoterapêutico tem um papel relevante.
Muitas pessoas com queixas de memória vivem com medo, vergonha ou insegurança.
Se criarmos um espaço seguro para falar sobre essas emoções estaremos a reduzir a ansiedade e a melhorar o funcionamento cognitivo, porque o cérebro trabalha melhor quando se sente seguro.
O papel dos familiares e cuidadores
Aos familiares e cuidadores deixo orientações simples e eficazes.
A previsibilidade do dia, rotinas claras e uma comunicação calma reduzem confusão e ansiedade.
Corrigir em excesso, pressionar ou testar a memória do outro aumenta sofrimento e não melhora o desempenho.
“Tratar a memória não é corrigir falhas. É criar condições para que a pessoa funcione com mais segurança e dignidade.”
O verdadeiro objetivo do tratamento
O objetivo terapêutico nunca é apenas melhorar resultados em testes.
O foco está em preservar a autonomia, reduzir o sofrimento e apoiar a pessoa e a família ao longo do percurso clínico.
Tratar a memória é tratar a pessoa como um todo, com realismo, cuidado e humanidade.
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