Quando a inovação caminha lado a lado com os cuidados centrados na pessoa.
Na área da saúde mental, a inovação terapêutica representa uma oportunidade para responder a desafios clínicos complexos e abrir novos caminhos de esperança. Contudo, nas Irmãs Hospitaleiras, acreditamos que qualquer avanço científico só alcança o seu verdadeiro potencial quando coloca a pessoa no centro do cuidado.
É precisamente esta reflexão que está presente neste artigo “A Terapêutica com Cetamina na Depressão Resistente: O Valor dos Cuidados Centrados na Pessoa na Prática de Enfermagem”, desenvolvido por profissionais das Irmãs Hospitaleiras Lisboa.
O texto aborda a depressão resistente ao tratamento, uma condição associada a elevados níveis de sofrimento e impacto significativo na vida das pessoas, explorando o papel da terapêutica com cetamina enquanto abordagem inovadora. Mais do que apresentar resultados clínicos, o artigo destaca a importância da intervenção especializada de enfermagem, da relação terapêutica e dos cuidados centrados na pessoa como elementos determinantes no processo de recuperação.
A avaliação clínica contínua, a escuta ativa, o apoio emocional, a psicoeducação e o envolvimento das famílias constituem pilares de um modelo assistencial que reconhece cada pessoa na sua singularidade, promovendo segurança, esperança e participação ativa no seu percurso de saúde.
Esta visão está profundamente alinhada com a missão das Irmãs Hospitaleiras: unir ciência, competência e Hospitalidade, oferecendo cuidados integrais, humanizados e centrados na dignidade de cada pessoa.
Porque, mesmo perante os avanços da medicina e da tecnologia, permanece uma certeza: Cuidar continua a ser muito mais do que tratar.
A Terapêutica com Cetamina na Depressão Resistente: O Valor dos Cuidados Centrados na Pessoa na Prática de Enfermagem
A depressão resistente ao tratamento (DRT) constitui um dos maiores desafios da psiquiatria contemporânea, associando-se a elevados níveis de sofrimento, incapacidade funcional, risco acrescido de suicídio e utilização frequente dos serviços de saúde. Apesar dos avanços farmacológicos das últimas décadas, uma proporção significativa de pessoas mantém sintomatologia persistente após múltiplas tentativas terapêuticas, tornando necessária a procura de abordagens inovadoras e complementares.
Neste contexto, a cetamina endovenosa tem emergido como uma estratégia terapêutica promissora, destacando-se pela rapidez da sua ação antidepressiva e pelo potencial benefício em situações de elevada gravidade clínica. Contudo, a crescente incorporação desta terapêutica na prática clínica suscita uma questão fundamental: será a eficácia do tratamento explicada exclusivamente pela ação farmacológica ou dependerá também da qualidade dos cuidados prestados ao longo do processo terapêutico?
Os resultados apresentados no estudo “Cuidar com Presença: A Pessoa no Centro da Terapêutica com Cetamina” oferecem elementos relevantes para esta reflexão. A análise de 41 pessoas com depressão refratária, submetidas a 399 ciclos de cetamina em contexto ambulatório, evidenciou uma evolução clínica favorável, reduzidas taxas de abandono terapêutico, escassos efeitos adversos significativos e ausência de reinternamentos durante o período em análise. Embora estes resultados reforcem a evidência disponível acerca da segurança e eficácia da cetamina, importa reconhecer o contributo decisivo da intervenção especializada de enfermagem para os ganhos observados.
O modelo assistencial descrito assenta nos princípios dos Cuidados Centrados na Pessoa (CCP), paradigma amplamente reconhecido como promotor da qualidade, segurança e humanização dos cuidados de saúde. Esta abordagem pressupõe a valorização da experiência subjetiva da pessoa, a construção de relações terapêuticas colaborativas e a participação ativa nos processos de decisão clínica. Na área da saúde mental, onde a relação interpessoal constitui frequentemente um instrumento terapêutico em si mesma, os CCP assumem particular relevância.
A intervenção de enfermagem apresentada transcende claramente a dimensão técnica associada à administração da terapêutica. A avaliação inicial estruturada, as entrevistas terapêuticas, a monitorização clínica contínua, a psicoeducação, o apoio emocional e o envolvimento da família configuram um conjunto integrado de intervenções que favorecem a segurança, a adesão terapêutica e a capacitação da pessoa para a gestão do seu processo de recuperação. Estas intervenções refletem uma prática baseada na relação terapêutica, considerada por diversos autores como um dos pilares da enfermagem em saúde mental.
Particularmente relevante é o destaque atribuído às entrevistas individuais enquanto instrumento simultaneamente terapêutico e avaliativo. Num momento em que a crescente tecnologização dos cuidados pode induzir uma excessiva valorização dos procedimentos técnicos, este estudo relembra que a escuta ativa, a presença terapêutica e a construção de significado partilhado permanecem intervenções clínicas essenciais. A evidência sugere que estas práticas contribuem para o fortalecimento da aliança terapêutica, um dos fatores mais consistentemente associados a melhores resultados em saúde mental.
Adicionalmente, os dados apresentados reforçam a importância do enfermeiro especialista como elemento central na implementação segura de terapêuticas inovadoras. A monitorização dos efeitos adversos, a identificação precoce de alterações clínicas, a gestão das expectativas da pessoa e da família e a promoção da literacia em saúde constituem áreas de intervenção autónoma que acrescentam valor ao processo terapêutico e potenciam os resultados clínicos.
Importa, contudo, reconhecer algumas limitações metodológicas inerentes ao estudo, nomeadamente o seu desenho retrospetivo e a ausência de instrumentos padronizados de avaliação dos resultados reportados pelos doentes. A realização de estudos prospetivos e longitudinais, com recurso a escalas validadas para a população portuguesa, permitirá aprofundar o conhecimento sobre o impacto da cetamina e, simultaneamente, quantificar o contributo específico das intervenções de enfermagem nos resultados obtidos.
Em síntese, a experiência apresentada demonstra que a inovação terapêutica e os cuidados centrados na pessoa não constituem dimensões concorrentes, mas complementares. A cetamina representa uma oportunidade relevante no tratamento da depressão resistente; contudo, a sua eficácia parece ser amplificada quando integrada num modelo assistencial que valoriza a singularidade da pessoa, a relação terapêutica e a intervenção especializada de enfermagem. Num cenário de crescente complexidade dos cuidados em saúde mental, este estudo reforça uma ideia fundamental para a disciplina de enfermagem: cuidar continua a ser muito mais do que tratar.
Filipa Pires de Lima – Irmãs Hospitaleiras Lisboa; Ana Moreira – ULSAR (Barreiro); Beatriz Gomes – Irmãs Hospitaleiras Lisboa; Cláudia Pedro – Irmãs Hospitaleiras Lisboa; Cláudia Silva – ULSAR (Barreiro).