O primeiro passo para cuidar de um familiar com lesão cerebral é compreender as sequelas que a lesão provocou. As alterações podem ser físicas, cognitivas e emocionais, pelo que cada caso é único e exige uma abordagem personalizada.
- As sequelas físicas incluem a fraqueza muscular, a espasticidade e as dificuldades de equilíbrio.
- As sequelas cognitivas manifestam-se através de problemas de memória, falta de atenção e lentidão no raciocínio.
- As alterações emocionais podem traduzir-se em irritabilidade, apatia, depressão ou labilidade emocional.
Explicamos melhor a seguir:
Sequelas físicas
As sequelas físicas são, em regra, as primeiras a serem reconhecidas pela família.
- A fraqueza muscular afeta tipicamente um lado do corpo, podendo ir de uma ligeira perda de força à paralisia completa (hemiplegia).
- A espasticidade traduz-se em rigidez muscular involuntária e tende a agravar-se sem tratamento.
- As dificuldades de equilíbrio aumentam significativamente o risco de quedas.
A esta lista juntam-se ainda a fadiga, a disfagia, as alterações da sensibilidade ou da visão e o controlo deficiente da bexiga.
A equipa das Irmãs Hospitaleiras nas Unidades de Belas e de Idanha (Sintra) avalia cada dimensão de forma específica, porque cada sintoma exige uma abordagem diferente.
Sequelas cognitivas
As sequelas cognitivas são frequentemente subvalorizadas porque não se vêem, mas têm impacto profundo na autonomia.
- Os problemas de memória afetam sobretudo a memória recente, o doente esquece-se do que fez há minutos ou repete a mesma pergunta várias vezes.
- A falta de atenção manifesta-se na incapacidade de seguir uma conversa ou de manter o foco numa tarefa.
- A lentidão no raciocínio traduz-se em respostas demoradas e fadiga mental rápida.
- Acrescem ainda dificuldades nas funções executivas, na linguagem e na orientação.
A equipa de neuropsicologia das Irmãs Hospitaleiras de Sintra utiliza testes padronizados para mapear estes défices e desenhar um programa dirigido aos sintomas reais.
Alterações emocionais
As alterações emocionais são a dimensão mais incompreendida, porque são interpretadas como “personalidade que mudou” quando são manifestações diretas da lesão.
- A irritabilidade traduz-se em reações desproporcionadas a estímulos pequenos.
- A apatia manifesta-se na perda de iniciativa e é confundida com preguiça.
- A depressão pós-lesão afeta cerca de um terço dos sobreviventes e atrasa a recuperação.
- A labilidade emocional traduz-se no choro ou riso descontrolado, sem refletir o estado real do doente.
A equipa de psicologia clínica das Irmãs Hospitaleiras nas Unidades de Sintra integra-se desde o início do programa, porque o equilíbrio emocional é tão determinante quanto qualquer exercício motor.
“Compreender que as mudanças de comportamento são consequência da lesão cerebral, e não escolhas do doente, é o primeiro passo para um cuidado eficaz.”
Nas Irmãs Hospitaleiras, a equipa multidisciplinar explica ao cuidador o perfil de sequelas de cada doente. Desta forma, o familiar compreende o que esperar e como adaptar o seu comportamento às necessidades reais do doente.
A neuropsicologia nas Irmãs Hospitaleiras realiza uma avaliação detalhada dos défices cognitivos. A equipa orienta o cuidador sobre como lidar com as dificuldades de memória, a desorientação e as alterações de comportamento no contexto doméstico.
As sequelas evoluem ao longo do tempo: a importância das reavaliações regulares
Uma das verdades menos discutidas sobre as sequelas da lesão cerebral é que não são estáticas. Algumas alterações que parecem graves nas primeiras semanas atenuam-se de forma significativa com a reabilitação; outras, pelo contrário, só se tornam evidentes meses após o regresso a casa, quando o doente retoma rotinas mais exigentes, como voltar ao trabalho, conduzir, gerir contas, cuidar dos netos.
As sequelas também interagem entre si: uma dificuldade motora pode agravar a depressão, e a depressão, por sua vez, abranda a recuperação cognitiva.
Por este motivo, a equipa das Irmãs Hospitaleiras de Sintra realiza reavaliações periódicas em que o fisiatra, o neuropsicólogo, o terapeuta ocupacional e o terapeuta da fala revêem em conjunto o perfil de cada doente e ajustam o plano terapêutico.
Esta reavaliação contínua é o que permite responder à pergunta que mais preocupa as famílias “isto é o melhor que ele consegue ficar?”com objetividade clínica e não com adivinhação.
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