A chegada de uma criança é habitualmente acompanhada por sonhos, expectativas e projetos construídos ao longo da gravidez. Quando surge o diagnóstico de uma deficiência ou de uma condição que altera esse percurso imaginado, os pais podem ser confrontados com um conjunto de emoções intensas e, muitas vezes, difíceis de compreender e gerir.

No artigo “Crianças Diferentes”, a psicóloga Teresa Viveiros, colaboradora das Irmãs Hospitaleiras Ponta Delgada, reflete sobre o impacto psicológico que esta experiência pode ter na família, explorando sentimentos como a tristeza, a culpa, a incerteza ou o luto pelo filho idealizado. Ao mesmo tempo, destaca os diferentes caminhos de adaptação e a importância do apoio, da compreensão e da colaboração entre famílias e profissionais.

Uma reflexão sensível sobre a experiência humana de cuidar, aceitar e crescer perante os desafios da vida, reafirmando a importância de uma abordagem centrada na pessoa e na sua dignidade.

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Crianças “diferentes”

 

Quando uma criança nasce com alguma deficiência, nem sempre é possível que esta seja reconhecida de imediato. Há numerosas deficiências que só se evidenciam quando a criança deixa de desenvolver os comportamentos adequados a determinada idade. Quando os pais são confrontados, pela primeira vez, com a notícia da chegada de um bebé diferente, dá-se a rotura de continuidade entre o sonho do bebé idealizado com o bebé real.

 

Se considerarmos todos os aspectos que afectam o significado da gravidez e do nascimento de uma criança “diferente”, facilmente podemos compreender que este momento constitui um momento traumático para a mãe.

 

O facto da criança ter sido considerada uma parte integral do self da mãe durante a gravidez, a concepção de uma criança diferente afecta profundamente a sua própria imagem, originando uma diminuição de sentimentos positivos dirigidos a si própria.

 

Este tipo de nascimento evoca na mãe sentimentos de fracasso em atingir as suas aspirações narcísicas em relação à criança, as quais tinham sido reforçadas durante a gravidez. A mãe pode identificar-se com a sua criança e, com esta identificação, sentir-se narcisicamente ferida, o que lhe pode, muitas vezes, ser intolerável.

 

A maioria das mães sente uma responsabilidade pessoal pelo modo como a criança veio ao mundo, culpando-se a si próprias pelo fracasso de terem gerado um filho deficiente, originando fortes sentimentos de desvalorização, auto-recriminação e culpa. A investigação analítica revela que o desapontamento, a vergonha narcísica e a depressão são as reacções mais frequentes subjacentes ao nascimento de uma criança deficiente.

 

Em vez de ser sobrevalorizada como objecto de amor, por vezes a criança é, pelo contrário, desvalorizada pela mãe, que também se desvaloriza a si própria. Surgem, então, sentimentos como a tristeza, o desamparo, incapacidade e o luto do bebé ideal. Parece seguro generalizar estas reacções para o pai.

 

A criança que os pais tinham imaginado não se identifica com a criança que nasceu, o que traz um sentimento de impotência, medo, incerteza, vergonha…

 

O período de luto (do bebé idealizado) que se segue é considerado de extrema importância no processo de trabalho dos sentimentos relacionados com a criança deficiente.

 

Finalmente, podemos afirmar que se verificam diferentes modos de lidar com este tipo de problemática: se os sentimentos são reprimidos são colocados em prática uma série de mecanismos de defesa contra a “dor emocional”; se são, por outro lado, racionalizados podem ser encontradas, desta forma, justificações adequadas para as acções e reacções; se os sentimentos forem projectados, culpam-se os outros pela própria infelicidade; podem sublimar-se os sentimentos de medo e de inadequação e supercompensá-los, lutando para se transformarem nos melhores pais do mundo; se a atitude dos pais for a de assumir a coresponsabilidade nessa defesa, então a sua atitude é a de colaborar de forma empenhada com os técnicos de saúde no trabalho a realizar com os seus filhos, de modo a que seja retirada a maior vantagem possível.

 

Teresa Viveiros

Psicóloga (CP010835)

 

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