No Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, reforça-se a importância de um cuidado em saúde que vá além do tratamento da doença, colocando a pessoa no centro das decisões clínicas. Em contextos de elevada complexidade terapêutica, como acontece frequentemente na oncologia, no envelhecimento e nos cuidados paliativos, a gestão responsável da medicação assume um papel determinante na qualidade de vida, segurança e dignidade dos cuidados prestados.

A desprescrição surge, neste âmbito, como uma prática clínica ética e baseada na evidência, que visa a revisão cuidadosa da terapêutica medicamentosa, reduzindo fármacos sem benefício atual ou cujo risco ultrapassa o seu valor terapêutico. Mais do que retirar medicamentos, trata-se de cuidar melhor, ajustando o tratamento à situação clínica, às preferências da pessoa e aos objetivos de cuidado em cada fase da vida.

Neste artigo, o Dr. Bernardo Rodrigues, farmacêutico das Irmãs Hospitaleiras Ponta Delgada, reflete sobre o papel da desprescrição enquanto estratégia fundamental para promover um uso mais seguro, racional e humano dos medicamentos, especialmente em contextos marcados pela polimedicação, fragilidade clínica e sofrimento acrescido.

Nas Irmãs Hospitaleiras, acreditamos que cuidar é também saber quando simplificar, proteger e acompanhar, sempre com respeito pela dignidade, autonomia e história de cada pessoa.

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Menos é Mais: O Valor da Desprescrição no Cuidado ao Paciente

 

A desprescrição de medicamentos é um conceito relativamente recente na prática clínica moderna, que ganha cada vez mais importância diante do envelhecimento populacional, da crescente prevalência de doenças crônicas e do uso indiscriminado de múltiplos fármacos.

 

Trata-se de um processo sistemático e deliberado, baseado em evidências, que visa a interrupção segura de medicamentos sem benefício terapêutico atual ou cujo perfil de risco ultrapassa os potenciais efeitos positivos. Este processo deve ser realizado com base em evidências clínicas, considerando o estado atual de saúde do paciente, as suas preferências e os objetivos do tratamento.

 

O conceito de polimedicação — comumente definido como o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos — é particularmente comum em idosos e pacientes com múltiplas comorbidades. Embora muitas vezes inevitável, a polimedicação aumenta substancialmente o risco de reações adversas, interações medicamentosas perigosas, redução da adesão terapêutica e hospitalizações. Neste cenário, a desprescrição configura-se como uma estratégia fundamental para otimizar a terapêutica medicamentosa e garantir maior segurança ao paciente.

 

Desprescrever não significa simplesmente retirar medicamentos de forma arbitrária. Pelo contrário, é um processo clínico cuidadoso que envolve uma revisão minuciosa do regime terapêutico do paciente, a identificação de fármacos potencialmente inapropriados ou desnecessários, a análise dos riscos e benefícios da sua continuidade e a tomada de decisão compartilhada entre profissionais de saúde, pacientes e, quando aplicável, seus cuidadores.

 

Após a interrupção de um ou mais medicamentos, é fundamental manter o acompanhamento próximo do paciente, para monitorar os possíveis efeitos desta suspensão e garantir a estabilidade clínica. Além disso, essa prática também contribui para a sustentabilidade dos sistemas de saúde, ao reduzir custos associados ao uso excessivo de fármacos e às complicações decorrentes desse uso.

 

Apesar das vantagens evidentes, a desprescrição ainda enfrenta barreiras importantes na prática clínica. Muitos profissionais de saúde, por receio de prejudicar o paciente, relutam em interromper medicamentos que foram prescritos anteriormente por outros colegas. A resistência dos pacientes também constitui um desafio, uma vez que muitos interpretam a suspensão de um medicamento como falta de cuidado médico ou abandono do tratamento.

 

Além disso, a ausência de protocolos bem definidos para orientar a desprescrição em certas situações clínicas, aliada à fragmentação do cuidado, compromete uma visão integrada dotratamento medicamentoso.

 

O diálogo com o paciente deve ser transparente e acolhedor, explicando claramente os motivos da desprescrição, os possíveis efeitos esperados e a importância do monitoramento contínuo. A atuação conjunta de equipes multidisciplinares — compostas por médicos, farmacêuticos, enfermeiros e outros profissionais — também é essencial para garantir a segurança e o sucesso desse processo.

 

Em síntese, a desprescrição representa uma prática clínica ética, segura e centrada no paciente, com potencial para melhorar significativamente os cuidados em saúde, sobretudo em contextos marcados pela complexidade terapêutica. Incorporá-la à rotina dos serviços de saúde é um passo importante para promover o uso mais racional, eficaz e humano dos medicamentos.

 

Dr. Bernardo Rodrigues

Farmacêutico.

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