Promover a Saúde Mental na Escola para Construir o Futuro
A promoção da saúde mental das crianças e dos jovens constitui hoje uma das maiores prioridades em saúde pública. A evidência científica demonstra que investir precocemente no desenvolvimento de competências emocionais e sociais contribui para prevenir dificuldades futuras, promover o bem-estar psicológico e favorecer trajetórias de vida mais saudáveis e equilibradas.
É neste contexto que as Irmãs Hospitaleiras Guarda desenvolvem o Educar@Mente, um programa de promoção da saúde mental em contexto escolar, que tem vindo a afirmar-se como uma resposta de proximidade, prevenção e capacitação junto da comunidade educativa.
Criado em 2021, o programa tem como principais objetivos promover a literacia em saúde mental, desenvolver competências socioemocionais e contribuir para o bem-estar psicológico de crianças e jovens. Ao longo destes anos, já envolveu mais de 1.027 alunos, do 2.º ciclo ao ensino secundário, através da realização de cerca de 365 sessões.
As intervenções decorrem em contexto de turma, privilegiando metodologias participativas e temas fundamentais para o crescimento saudável dos jovens, como o autoconhecimento, a autoestima, a comunicação, a gestão emocional, a ansiedade, as relações interpessoais, a imagem corporal, os afetos ou a prevenção das dependências.
Em 2025, o Educar@Mente conheceu uma nova etapa de crescimento, através do financiamento do programa Portugal Inovação Social 2030 e da parceria com o Município da Guarda, alargando a sua intervenção aos dois agrupamentos de escolas do concelho e reforçando a continuidade do acompanhamento ao longo dos diferentes ciclos de escolaridade.
Mais do que um conjunto de sessões, o Educar@Mente representa uma forma de cuidar: preventiva, próxima e humanizada, em consonância com a missão das Irmãs Hospitaleiras de promover a dignidade da pessoa, o cuidado integral e a construção de comunidades mais saudáveis e inclusivas.
Os testemunhos de alunos e professores refletem o impacto desta iniciativa e reforçam uma convicção que acompanha a missão hospitaleira há mais de um século: cuidar da saúde mental desde cedo é ajudar cada criança e jovem a crescer com mais confiança, equilíbrio e esperança.
Porque cuidar é também educar. Porque prevenir é uma forma de amar. Porque a saúde mental constrói-se todos os dias.
Educar@Mente – Programa de Promoção da Saúde Mental em Contexto Escolar
A evidência científica atual sugere que a saúde mental surge como uma área prioritária de intervenção em meio escolar, tendo em conta a maior incidência de problemas de saúde mental entre os jovens, os quais constituem um dos principais preditores dos problemas de saúde psicológica na idade adulta (Carvalho et al., 2016).
A adolescência é um período crucial para o desenvolvimento social e emocional dos jovens, no qual desenvolvem competências e recursos para lidar com os desafios que vão encontrando ao longo da sua vida (WHO, 2021). Assim, a saúde mental da infância e da adolescência deve ser entendida numa vertente adaptativa do desenvolvimento e do comportamento, devendo a intervenção ser feita o mais precocemente possível, contribuindo assim para que as dificuldades sejam transitórias e maturativas (Carvalho et al., 2016; OPP, 2022).
O contexto educativo, sendo um dos principais pilares do desenvolvimento e da promoção do bem-estar, representa um contexto privilegiado para a realização de ações de prevenção e promoção da saúde psicológica em crianças e jovens (OPP, 2014). Neste sentido, a revisão da literatura tem demonstrado a importância da implementação deste tipo de programas escolares na prevenção dos problemas mentais e na redução do impacto dos problemas comportamentais, sociais e emocionais nas crianças e adolescentes, sendo os efeitos estáveis e duradouros (Jané-Llopis et al., 2005).
O programa Educar@Mente tem como principais objetivos a promoção das competências socioemocionais, a literacia em saúde mental e o bem-estar psicológico em crianças e jovens, em contexto escolar.
A sua implementação teve início em outubro de 2021, através da dinamização de sessões de literacia em saúde mental e combate ao estigma, no âmbito das atividades do eixo I, Prevenção e Diagnóstico Precoce, do Gabinete de Intervenção Comunitária em Saúde Mental (GIC). Numa fase inicial, foi desenvolvida uma intervenção estruturada em quatro turmas do 3º ciclo do Agrupamento de Escolas da Sé. Contudo, a partir da auscultação da comunidade educativa, identificou-se a necessidade de alargar a intervenção, integrando também a promoção de competências socioemocionais. Aolongo dos cinco anos, o programa abrangeu mais de 1027 alunos, do 2º ciclo ao ensino secundário, tendo sido realizadas cerca de 365 sessões.
As sessões são dinamizadas em contexto de turma, com periodicidade mensal e duração aproximada de 50 minutos, utilizando uma metodologia que privilegia abordagens participativas, recorrendo a técnicas como dinâmicas de grupo, role-play, brainstorming, debate de ideias e atividades práticas, de forma a promover o envolvimento ativo dos alunos.
As temáticas abordadas são definidas em função das necessidades identificadas pela comunidade educativa, incluindo alunos, professores e encarregados de educação.
Entre os principais conteúdos trabalhados destacam-se o autoconhecimento, a comunicação, a identificação e gestão de emoções, a autoestima, a imagem corporal, as dependências, as relações interpessoais, a empatia, a resolução de problemas, a sexualidade e os afetos, a ansiedade e outros temas de saúde mental.
Em setembro de 2025, através do financiamento do programa Portugal Inovação Social 2030, em parceria com o Município da Guarda, o programa foi alargado a 24 turmas distribuídas pelos dois agrupamentos de escolas do concelho (Agrupamentos de Escolas da Sé e Agrupamento de Escolas Afonso de Albuquerque). Trata-se de um programa de continuidade, que visa o acompanhamento dos ciclos de escolaridade, de forma a obter resultados mais duradouros e generalizados. Ao longo dos três anos de implementação, estima-se a realização de 648 sessões (216 por ano letivo), envolvendo aproximadamente 503 alunos do 2.º ciclo, 3.º ciclo (incluindo cursos de Educação e Formação) e ensino secundário profissional.
A avaliação do impacto do programa é realizada no início e término do ano letivo, através da aplicação de dois instrumentos validados cientificamente, a Escala de Avaliação das Competências Pessoais e Sociais “Para mim é fácil” (Gaspar & Matos, 2015) e o Kidscreen10 (Matos et al., 2012), complementada por questionários de satisfação dirigidos a alunos e docentes.
Neste sentido, o programa Educar@Mente tem sido reconhecido pela comunidade educativa e assumido progressivamente um papel de referência na promoção da saúde mental em contexto escolar, evidenciando níveis elevados de satisfação. A eficácia e pertinência do Educar@Mente tem sido destacada tanto por parte dos alunos:
“Ajudaram-nos e ensinaram-nos a ter confiança e a acreditar que somostodos iguais.”
“Conseguimos compreender melhor os nossos sentimentos e comportamentos dos outros”.
“Gostei de falar sobre os nossos sentimentos, especialmente porque somos adolescentes.”,
Como por parte do corpo docente:
“O programa Educar@Mente tem-se revelado uma iniciativa de grande relevância para a promoção do bem-estar e da saúde mental em contexto escolar. As sessões dinamizadas têm contribuído para o desenvolvimento pessoal e social dos alunos, sendo reconhecida a qualidade do trabalho desenvolvido e a pertinência das atividades propostas, que têm favorecido um maior envolvimento dos alunos, bem como uma maior sensibilização para a importância da saúde mental na escola”.
A equipa do Educar@Mente,
Axelle Gonçalves
Vânia Pires
Referências Bibliográficas:
Carvalho A*, Almeida C*, Amann G*, Leal P**, Marta F***, Moita M***, Pereira F****,
Ladeiras L****, Lima R****, Lopes I****. Saúde Mental em Saúde Escolar. Manual para a
Promoção de Aprendizagens Socioemocionais em Meio Escolar. Lisboa, 2016. (*DGS, **
IPS/ESS, *** PV, ****DGE)
Gaspar, T., & Matos, M. G. M. (2015). Para mim é fácil: Escala de avaliação de
competências pessoais e sociais. Psicologia, Saúde e Doenças, 16(2), 199-211.
Matos, M. G. de, Gaspar, T., & Simões, C. (2012). Health-related quality of life in
portuguese children and adolescents. Psicologia: Reflexão e Crítica, 25(2), 230–237.
Jané-Llopis, E., & Barry, M. (2005). What makes mental health promotion effective?.
IUHPE – Promotion & Education Suplmmemt 2, pp. 1-9.
Ordem dos Psicólogos Portugueses (2014). Investir na Prevenção e Promoção da Saúde
Mental em Contexto Educativo. Lisboa.Ordem dos Psicólogos Portugueses (2022). Contributo para o Programa Parlamento
Jovem – “Saúde Mental nos Jovens: Que desafios? Que respostas?”. Lisboa.
World Health Organization (2021). Adolescent mental health. Retirado de
https://www.who.int/news room/fact-sheets/detail/adolescent-mental-health.