Quando um paciente me pergunta “Mas porquê eu?”, eu raramente dou uma resposta curta, porque a depressão raramente nasce de uma só causa.
Na minha consulta, eu faço sempre um exercício que é clínico e humano: eu tento compreender a história por trás dos sintomas.
Procuro os fatores biológicos, porque a depressão tem uma base neurobiológica real.
Explico que existem alterações nos circuitos cerebrais ligados ao humor e à motivação, e que os neurotransmissores, como a serotonina, a dopamina e a noradrenalina, têm um papel relevante.
E avalio também o sono, a energia, os ritmos hormonais, os sinais de stress crónico, e as doenças médicas que podem agravar o quadro.
Depois, vou ao território psicológico, porque uma pessoa não é apenas um cérebro.
Pergunto pelas perdas, pelos traumas, pelas feridas antigas, pelas exigências internas, pela culpa aprendida e pelo peso de uma vida vivida em esforço.
Em muitos pacientes, encontro uma história de resistência longa: anos a “aguentar” até o organismo deixar de ter margem.
E exploro o contexto social, porque o isolamento, a solidão, a sobrecarga familiar, a instabilidade financeira ou um ambiente emocionalmente duro podem empurrar uma vulnerabilidade para uma depressão instalada.
Digo muitas vezes: “A depressão não nasce apenas dentro da pessoa, nasce também dentro da vida que a pessoa tem vivido.”